IX – Confusões mentais

Em silencio entrou no carro, entrou e logo saiu, decidiu dar uma caminhada pela praia. Descalçou os pés e sem rumo partiu a caminhar no sol que o aquecia e o fazia andar mais e mais. Pela mente alguns poucos barulhos que vinham de algum lugar que não o momento em que vivia, de um passado onde Sophia era mais presente ou de um presente onde Sophia era mais passado. Confusões mentais que mais o iludiam do que o ajudavam a tomar um rumo. Rumo que veio procurar junto a este mar gelado que banha a costa do Rio Grande, junto a essas areias que separam o continente do oceano. Procurando em algum lugar do passado encontrar forças e direção para o futuro, com ou sem Sophia.

- Espere! Você esqueceu o casaco. – era Raquel correndo em sua direção.

- Obrigado! - agradeceu a gentileza da menina que corria em sua direção.

- Sophia, digo Raquel, você trabalha o dia inteiro?

- Na verdade não, eu trabalho até as duas e depois eu volto a noite quando a mãe precisa de mim, é que o restaurante é dos meus pais. – falou a menina com a voz um pouco tremula.

- Eu pensei... de eu, digo agente... sair, conversar...

- Não sei. – tinha em seu rosto um sorriso estampado e só agora ele percebeu que a menina usava aparelho nos dentes. – Mas agora tenho que ir, eu saio as duas, vem aqui pra gente conversar.

Olhou seu relógio que marcava pouco menos de uma da tarde, sabia que faltava pouco, mas o tempo insiste em não passar quando mais queremos, na verdade o tempo é adverso a nossa vontade e corre por conta própria.

Quando queremos que não passe ele então voa lembrando os áureos tempos de Senna e quando queremos que ele voe ele se estatela em nossa frente e insiste em congelar as coisas tornando a espera ainda mais árdua. Melhor dar uma caminhada pra enganar o tempo, assim ele talvez não perceba que está a meu favor, foi o que pensou.

Andou em direção ao norte a favor do vento, a brisa que o fazia sentir frio pela manhã havia se tornado um belo de um vento que trazia consigo nuvens de areia rasteira que se confrontavam com suas panturrilhas nuas. Pelo caminho nada de diferente, avistava algumas casas e nenhuma pessoa, apesar de ser o centro da cidade era inverno e ninguém vai pra praia no inverno, só encontramos no inverno pessoas que vivem no litoral e alguns aventureiros. Que como ele vem encontrar algo no litoral.

Algo não saia de sua cabeça, era aquele sentimento que sentiu logo pela manhã, de que não estava sozinho ou de que não mais iria ficar sozinho. Seria um pressentimento de que iria conhecer Raquel? Raquel não lembrava em nada Sophia, mas assim como Sophia, Raquel agora subitamente não saia de sua cabeça algo que não sabia explicar e agora talvez nem quisesse explicar.

- Já são quase duas horas vou voltar. – falou pra si mesmo.

Voltou pelo mesmo caminho, agora com o vento com maior intensidade e contra, as pequenas nuvens de areia pareciam turbilhões vindo de encontro as suas pernas. O mar estava muito frio e o fez caminhar ainda mais longe da margem, o sol esquentava os membros superiores e desenhava no horizonte algo indescritível e ao mesmo tempo lindo. Em frente ao restaurante esperou por um tempo até ver a menina de óculos sair. Os dois se sentaram ali perto em um banco gasto pela maresia freqüente.

- Então o que mais você faz além de trabalhar aqui – perguntou meio sem saber se queria a resposta, neste momento reparou melhor na menina, que deixava escapar um doce perfume, olhou para suas pequenas mãos, reparou nas unhas ruídas e na falta de anéis.

- Ah... eu só trabalho aqui, mas porque você me chamou de Sophia antes? Quem é Sophia?

- Eu só me confundi. Sophia era, ou melhor, é uma amiga minha, faz tempo que agente não se fala, mas não quero falar sobre isto.

- Tá bom, mas você mora aqui? Nunca te vi.

- Não, na verdade eu não moro aqui, estou aqui para uma espécie de retiro mental. Algo que está mais em minha cabeça do que em algum lugar.

- Você é meio doidinho né?! – falou a menina enquanto o olhava fixamente e apoiava a cabeça com a mão direita, que por sua vez se apoiava no joelho.
Sem entender o motivo, talvez pela expressão corporal, agora Raquel começava e lembrar em muito Sophia. Onde andaria Sophia? Esta pergunta começava a ecoar dentro de sua cabeça.

- Ah!! – com um sorriso estampado no rosto respondeu – todos somos um pouco doidos, tu não acha?!

- É, talvez... uns mais outro menos – agora mais uma vez estampava seu rosto com um sorriso e mostrava-se cada vez mais interessada em estar ali.

Enquanto ela falava, ele apenas ficava olhando fixamente em seus olhos, numa tentativa frustrada de saber o que ela pensava, ficava admirando aquela menina que há pouco conhecera, sentindo sua respiração e seus sentidos, ficava devaneando a respeito dos caminhos que ela seguira até este exato momento onde conversavam tão próximos. Ela era uma espécie de sonho bom que temos depois de uma seqüência de pesadelos. A bonança que vem após a tempestade.

- Pára de me olhar assim – falou enquanto seu rosto ficava corado.

- Tá bom! Falou concordando com o que a menina pedia.
Neste momento sentiu uma alegria enorme de estar falando com alguém, mas ao mesmo tempo sentiu que não podia se entregar de corpo e alma a algo novo. Sentia como se estivesse traindo seus sentidos, afinal, ele queria encontrar uma maneira de ter, de entender e de aceitar Sophia. E este novo caminho que poderia estar surgindo, era certo envolver Raquel nisto tudo? Será que este era o melhor momento para ter conhecido alguém? O que eram estas confusões mentais que o adornavam?

Um grande silêncio tomou conta do ambiente, como se acabasse tudo o que tinha pra falar, este era o momento do gran finale tão esperado, era hora de quebrar o protocolo e tacar um beijo na menina. Segurou as mãos dela e a olhou nos olhos, beijou as mãos em um gesto de carinho, em troca recebeu mais um sorriso.

- Bom agora eu sei onde posso te encontrar – falou já em tom de despedida.

- Sim, agora você sabe. Se cuida viu e vê se encontra as tuas soluções para estas confusões mentais – falou a menina enquanto o olhava partir.

- Até mais, eu te ligo...

- Até – respondeu a menina enquanto acenava.
Embarcou no carro e saiu sem olhar pra trás, ainda era cedo, a musica que tocava o fazia fugir ainda mais de pressa. A única coisa que se perguntava era se a menina era real e se era realmente a hora de isto ter acontecido.
Parecia lindo o caminho ao lado de Raquel, mas seus devaneios a respeito de tudo o confundiam e o afastavam da idéia de viver sem Sophia.
No caminho de volta resolveu não ir pela beira-mar, preferiu voltar pela estrada, durante parte do caminho só via deserto depois um pouco de campo com alguns animais que pastavam livremente, mais ao longe uma lagoa que embelezava ainda mais o caminho, o seu caminho.


**voltar para o livro, A Casa Vazia***

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