VIII – Rachel

- Essa é minha amiga Rachel. – falou Sophia – nós estudamos juntas no inglês. – complementou.

- Muito prazer! – exclamou olhando a menina de cima a baixo.

Era uma garota de olhos puxados, herança oriental de seu pai, pele levemente mais escura que a de Sophia, cabelos longos e cacheados nas pontas, usava uma blusa rosa, calça Jeans e tênis All Star de cor vermelha, era dois anos mais velha que Sophia, que nesta época tinha pouco mais de catorze anos, dois anos a mais era o suficiente para chamar dez vezes mais atenção do que ela.

- É ela quem vai comigo no seu show. – disse Sophia.

Era a primeira vez que iria se apresentar com uma banda, na verdade estava no lugar do baixista da banda de uns amigos, iria quebrar um galho para a banda, o baixista se chamava Léo e tinha quebrado o braço, ele havia feito dois ensaios antes do tal ‘show’ com a banda que se chamava Limões Verdes, estava uma pilha de nervos. Não gostava muito da idéia de tocar contrabaixo em uma banda, preferia guitarra, mas adorava a idéia de tocar com uma banda ainda que ela se chamasse Limões Verdes. O vocalista se chamava Pedro, mas era conhecido mesmo como Fanho pela forma que falava antes de fazer a cirurgia de correção. O baterista era um menino mirrado que usava óculos, seu nome era Fernando, mas todos o chamavam de Nando.

A Limões Verdes era um Power trio, destes de por o palco a baixo, tocavam basicamente Punk Rock e Hard Core e ele estava adorando aquela nova galera, apesar de saber que permaneceria por pouco tempo ali. O show seria na sua escola, nessas festas que ocorrem para arrecadar fundos a quem se vai se formar.

No dia do show foi a casa de Sophia e estava sentado na sala, enquanto aguardava ela e sua amiga Rachel que se arrumavam no andar de cima, era algo infernal a espera, além da ansiedade por causa do show ainda tinha que esperar as gurias. Ficava olhando o mundo ao redor, que neste caso não passava de uns porta retratos de todas as idades de Sophia, tinha também algumas fotos do casamento dos pais dela e ainda uma foto com sua avó materna.

- Agente vai se atrasar. – gritou ao pé da escada. – ainda faltava mais de duas horas para o show e a escola ficava a 3 quarteirões dali.

- Já estamos quase prontas. – remendou Sophia.

Havia também um quadro, na verdade uma réplica de um quadro, de Candido Portinari, o quadro se chamava “Menino com Pássaro” e datava de 1957, Portinari foi um grande pintor brasileiro que viveu de 1903 a 1962. O quadro ficava perto da porta de acesso a sala de jantar e trazia certa nostalgia ao ambiente, sempre que ia à casa de Sophia ele ficava observando cada detalhe daquele quadro, eram traços firmes, mas que não davam forma ao rosto do menino que segurava um pássaro preto. Aquele quadro o fazia lembrar a vez que fora junto com Sophia visitar uma tia dela que morava no interior de Mariana Pimentel, cidade da Região

Metropolitana de Porto Alegre, mas que mais parece interior do interior.
Já haviam se passado mais de quarenta minutos desde o ultimo grito quando as duas resolveram descer, nada de anormal a não ser o fato de que as duas mais parecerem que iriam fazer compras no shopping do que a um show de rock. Sophia vestia meia-calça listrada em branco e preto, mini saia em jeans desbotado, uma baby look dos Rolling Stones (ela nunca havia escutado) e o All Star vermelho de Rachel, que por sua vez vestia quase a mesma coisa, trocando a cor do tênis por preto e a banda da camiseta por Greenday. Saíram os três rumo ao palco do show.

Ao subir no palco sentiu um misto de satisfação, medo e dor de barriga, iriam tocar oito musicas, mas para ele pareciam oito horas de frente para o publico que o encarava e o aguardava. Holofotes em seus olhos o faziam enxergar pouco mais do que a terceira fila e ainda o causavam imenso calor. Mas como mágica tudo passou quando tocou a primeira nota, naquele contrabaixo emprestado. As musicas soaram bem e rapidamente o show já estava no fim e o público formado de meninas e meninos de treze a dezessete anos parecia ter gostado e isso era uma grande vitória pessoal.

- Você foi muito bem! – gritou Sophia quando ele desceu do pequeno palco.

- Obrigado. – agradeceu ainda meio dopado pela adrenalina.

- Vai falar com a Rachel, ela que falar contigo. – gritou mais uma vez Sophia, agora apontando para a menina que estava escorada a uns três metros de distancia.

- Você quer falar comigo? – perguntou meio confuso.

- Você não quer falar comigo? – perguntou Rachel meio envergonhada. – A Sô não falou contigo?

- Falou o que? Do que está falan...

Nisso Rachel pulou em seu pescoço o pegando de surpresa e roubando um beijo destes de tirar o fôlego, ficou estático e sem entender. Quando a menina o largou só conseguiu ver Sophia rindo da situação. Por sua atitude ou melhor por falta dela a menina não quis continuar e também não quis mais papo com ele, logo em seguida foram embora e ele ficou o caminho inteiro sem pronunciar uma só palavra.


**voltar para o livro, A Casa Vazia***

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