VII – Raquel

Uma chuveirada e pronto. Água bem quente deve ser o suficiente para fazer isto passar – foi o que pensou, pois era a segunda vez que acordava meio tonto em três dias. E realmente foi o suficiente para fazer passar aquela tontura, tontura meio sem causa ou com toda a causa do mundo, as coisas estavam confusas, quem de fato era a pessoa que estava com Sophia? O que Sophia queria quando ligou? Por que não conseguia falar o que sentia? O que de fato sentia?

Parecia que o dia não seria dos mais frios, nada que dispensasse um bom casaco e um bom mate. Preparou seu café da manhã com um sentimento estranho, sentia dentro de si que não estava ou que não estaria mais sozinho ao longo do dia. Um sentimento realmente estranho, mas que não o deixou em paz durante aquele minguado café da manhã. Era hora de comer algo além macarrão instantâneo e biscoito salgado.

Ligou o radio do carro, colocou os óculos escuros e saiu, com seu sentimento estranho, sua garrafa térmica e sua cuia de chimarrão. Pretendia esquecer as aflições, os medos e as tonturas. Abriu os vidros pra sentir o ar gelado que o envolvia, rumava em direção ao sul, andava a beira-mar e via pelo retrovisor as marcas deixadas por seus pneus, uma leve poeira que se desprendia da areia e a saudade da coragem que nunca teve. Era hora de mudar, de sentir-se bem, de sanar os problemas. Sabia que a fonte de seus problemas era ele mesmo, mas Sophia já não estava sozinha e isso ele não podia mudar, mas será que Sophia resolveria seus problemas?

Depois um tempo as coisas pareciam mais claras em sua mente, seu retiro estava lhe trazendo um pouco de paz, ainda que desmistificada. Começava a enxergar alguns caminhos ainda que não absolutos e à sua mente surgiam flashes de um passado que vivera feliz ao lado de Sophia, sempre foram felizes sendo amigos por que agora não mais conseguia? Ou sempre fora apaixonado por ela? O que Sophia sentia por ele? O que deveria fazer? Onde andaria Sophia agora além de estar em seus pensamentos?

Parou o carro de frente para o mar e deitou-se em cima do capô para tomar um pouco de sol, a brisa colidia com seu rosto pálido e gelado, na mente apenas lembranças inoportunas para o momento, como a do primeiro juramento que fizera e das confusões que isto lhe proporcionava agora, ergueu a cabeça novamente, respirou fundo, olhou o horizonte e tomou mais uma cuia de chimarrão. O sol a pico indicava que já era meio dia e a necessidade de alimentar-se o chamava a continuar sua viajem errante pelas areias salgadas do litoral.

Novamente bateu arranque e partiu agora seu destino era algum restaurante, algum que não servisse macarrão instantâneo. O lugar parecia ruim, mas mesmo assim ele sentiu uma vontade estranha de parar e entrar, talvez pelo nome do lugar que se chamava “Restaurante Lagoa Azul” e isso o remetia para sua infância, se por fora parecia ruim, por dentro a visão era outra, era um restaurante quase que temático, parecia um navio por dentro, sentou-se e esperou.

- O que deseja? – perguntou a atendente.

- Posso ver o cardápio? – respondeu depois de um tempo com um ar de curiosidade fixando os olhos na menina, que tinha pouco menos de um metro e sessenta, cabelos negros, pele branca e olhos escuros que se escondiam atrás de um par de lentes com armação estilo Fiorucci em cor rosa.

- Sim claro, aqui está. – entregando-lhe uma pasta com capa de cor preta, dentro continha duas folhas com nomes estranhos que mais lhe causavam repulsa do que apetite. Depois de um tempo escolheu mesmo uma tradicional ala minuta, perguntou se demoraria muito, mas o tempo não fazia diferença naquele momento, perguntou mesmo para puxar assunto com aquela menina que não deveria ter mais de dezoito anos.

- Não, é bem rápido, mas alguma coisa senhor?

- Uma companhia. – resmungou com voz bem baixinha.

- O que? – meio sem entender ela disse, franzindo a testa e mexendo a boca para o lado.

- Não é só isso. – respondeu com um sorriso malicioso no rosto.
Enquanto esperava depois de dar uma boa olhada em todos os detalhes daquele lugar que tinha suas paredes em branco com detalhes em azul, uma parede com pinturas imitando o fundo do mar e alguns timões como decoração, fixou os olhos em direção ao mar, o restaurante tinha uma boa vista para ele, parecia ser baste freqüentado, mas ele não sentia a mínima vontade de voltar e nem de permanecer, nem entendia o motivo de ter ali entrado.

A espera não foi longa e logo estava pronto. Comeu lentamente, enquanto olhava volta e meia para menina de óculos de grau, ficou pensando o que ela fazia além de trabalhar em um restaurante a beira-mar, ficou imaginado os passos que ela daria durante a vida, ficou apenas imaginando. Na verdade aquilo era um bom motivo pra não lembrar Sophia e isso pra ele já era bom. Tudo pronto hora de pagar e partir, dirigiu-se ao caixa pagou e antes de sair encheu-se de coragem, vencer a timidez era e sempre fora algo um tanto quanto difícil pra ele, e perguntou o nome dela.

- Raquel. – respondeu com um sorriso sem graça e com muita vergonha. Mas como se esperasse algo além de uma pergunta.

- Um bom nome, bom nome mesmo... – falou deixando a menina ainda mais sem graça, percebendo o ocorrido preferiu deixar assim.

- Então... então, tchau Raquel. – lembrou-se de uma Rachel que conhecera quando tinha quinze anos, foi saindo porta a fora, mas antes de sair voltou olhou nos olhos dela e disse:

- Até mais, agente se fala. – aquela foi a frase mais idiota que alguém poderia dizer naquele momento, foi o que pensou quando entrava no carro.


**voltar para o livro, A Casa Vazia***

Nenhum comentário:

Postar um comentário