VI – A primeira jura

Ainda dormindo sentiu que alguém se aproximava, naquele transe entre o sono e o despertar, aquele momento em que apenas se quer dormir mais, quer voltar ao mundo dos sonhos e não se consegue. Decidiu fazer ainda mais silêncio, ouviu alguém que abria suavemente a porta e então gritava: “- Acooorda!” era Sophia que há pouco havia chegado à praia, acompanhada de seus pais que queriam comprar uma casa ali, na verdade era ela quem queria que fosse ali, tinha que ser naquela praia. Ela vestia um short de cor azul, uma blusinha de mangas bem curtas estilo marinheiro e estava com seu cabelo transado.

- Como você chegou aqui? - perguntou surpreso.

- Eu falei que viria. - Respondeu Sophia e ainda completou em um tom com se cochichasse – nós vamos comprar uma casa aqui e seremos vizinhos também de praia! Não é legal?

- Legal é, mas... – respondeu ainda confuso pelo sono.

- Mas o quê? – com cara de decepção, cara de quem via o mundo desabar.

- Mas... mas... mas deixa eu dormir um pouco mais...

- Não! Já é hora de sair desta cama...

O clima estava novamente descontraído, então se levantou, foi ao banheiro, pegou uma maçã, cumprimentou seus pais e os de Sophia e saíram os dois rumo a praia. Rumo ao sol escaldante do mês de janeiro, o mais quente do verão gaúcho. Era a primeira vez que os dois juntos ali estavam, a euforia de ser a pessoa mais importante em determinado momento era tão grande que mal cabia em si, não era muito comum para alguém de doze anos ser o centro das atenções. Correram de encontro ao mar, não havia muitos obstáculos pelo caminho, o maior de todos eram os paralelepípedos irregulares que prejudicavam a corrida e o calor da areia que fazia a velocidade aumentar.

O mar estava gelado, como de costume, e com poucas ondas.

O velho contraste da areia escaldante com o gélido mar, as poucas dunas, o cinza da água e as muitas tatuíras. Tatuíras que a primeira vista parecem atrapalhar, mas que na verdade são inofensivas e indefesas frente aos pés que as esmagam.

Andaram como dois desbravadores, correram sobre a grama alheia, nadaram entre as ondas, rolaram na areia, comeram milho-verde, correram mais um pouco, nadaram mais um pouco e cansaram. Cansaram tanto que decidiram voltar pra casa, mas desta vez bem mais devagar do que quando partiram.

- Tu jura? – perguntou Sophia.

- Jura o que? – respondeu sem entender, e reparando que o semblante dela era de quem falava sério.

- Que agente vai ser sempre amigo e nunca vai se separar.

- Mas porque isso?

- Só jura, estou com um sentimento esquisito, jura vai...

- Tá bom Sophia eu juro, eu juro. – ainda sem entender a magnitude e a essência do momento.

Entender do universo feminino não era o seu forte, não nesta época. Continuaram os dois lado a lado. Chegando à casa correram para o chuveiro.
- Sophia primeiro! – exclamou Dona Ana, apontando para o banheiro.

- Mãe?! – respondeu, mas já acatando a vontade.

Ficou sentado próximo ao banheiro, admirando o nada e deixando sua mente digerir aquele juramento que a pouco fizera, era a primeira vez que fazia um juramento e para ele aquilo parecia ser algo sério, algo que nunca poderia ser quebrado, parecia ser de fato um juramento.

Voltou para o quarto enquanto aguardava para tomar banho, olhou para as paredes, para o velho guarda-roupa, para a cama desarrumada e para a janela, e nesta perdeu o foco da visão permanecendo assim imóvel. Imóvel enquanto a luz do sol o tocava e o tostava, seu pensamento estava longe, na verdade estava refazendo a jura, revendo os passos dados ao lado de Sophia e fixos numa única vontade, vontade de tirar todo aquele sal do corpo.


**voltar para o livro, A Casa Vazia***

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