XI – Prá Dizer Olá

O caminho entre o restaurante e sua casa não era dos mais longos e rapidamente ele já podia avistá-la, chegou a tempo de fazer algo que há muito não fazia e que lhe estava fazendo certa falta. Estacionou o carro sobre a calçada em frente, desceu empunhando um pequeno caderno de anotações e seu inseparável violão, já haviam sido mais unidos outrora, mas ainda estavam juntos. Sentou ali mesmo na calçada, verificou a afinação do instrumento e começou a brincar sobre a escala do mesmo. Seu violão era um Eagle GL-36 preto, um modelo já fora de linha, mas que detinha um braço fino bom pra quem gosta de ficar brincando em um movimento frenético sobre a escala.
Apoiou o instrumento na perna direita, o caderninho na perna esquerda e começou a procurar uma melodia que há dias ecoava em sua mente e que de certa forma transpassasse o que ele sentia. Enquanto dedilhava alguns acordes sentiu como se alguém o observasse e num misto de devaneio e lucidez sentiu o perfume que seu pai usava e por alguns instantes pode sentir a presença dele bem perto. Isto fez passar o sentimento que sentira pela manhã, de que não estava ou não estaria mais sozinho e realmente passou a sentir-se acompanhado, acompanhado de seu velho pai.
O crepúsculo se aproximava, nesta época do ano o sol se despede mais cedo do que o comum e por volta das dezessete horas já pode se vê-lo no poente, com o pôr do sol vem também um vento frio e como não encontrava a tal melodia preferiu entrar e preparar uma bebida para lhe esquentar. Um chocolate quente sempre cai bem ao entardecer foi o que pensou e fez, ferveu um pouco de leite, misturou com achocolatado e para dar um toque especial colocou dentro dois tabletes de chocolate meio amargo.
Voltou para o lado de fora da casa, sentou se na varanda empunhou novamente seu violão e desta vez as coisas pareciam fluir mais facilidade. Enquanto admirava o vôo de uma ou outra gaivota vinha-lhe a mente alguns versos soltos que rapidamente rabiscava em seu caderno. A melodia parecia já estar totalmente pronta e agora só lhe faltava transpor seus sentimentos para o papel. Costumava compor algumas canções sempre com o máximo de realismo possível. Era sua forma de dizer ao mundo o que pensava ou sentia. Os primeiros versos são sempre os mais difíceis, pois são os de maior responsabilidade, eles que dão um rumo certo que se deve seguir por toda a canção, eles devem introduzir e ao mesmo tempo transportar quem ouve para um universo paralelo, o universo da canção.

“Sopra forte o vento e com a areia vai apagando,
As vezes penso que era melhor não ter te conhecido
E nunca ter fingido não querer
E nunca ter dito pra você
(o que eu sentia, o que eu não sabia dizer).”

Os versos começaram a flui em um ritmo bom, quando se fala com o coração as coisas passam a ter uma maior solidez e pulsam como se tivessem vida própria. A melodia parecia se encaixar perfeitamente com os versos que saiam do pequeno caderno, do pequeno caderno e de algum lugar de suas lembranças.

“A arei vem rasteira e faz, eu sentir minhas pernas
Caminho a mais de duas horas neste gelado lugar
Para ver se encontro onde foi que me perdi
Para ver se encontro onde foi que te perdi.”

Parecia soar triste, mas há algum tempo as coisas já não soavam bem, ele nem se lembrava a quantos dias estava ali, não se lembrava se podia voltar, não se lembrar o que de fato procurava. Apenas deixava os versos tocarem sem obstáculos aquela que era a sua verdade.

“A verdade é que não há nada e nem ninguém
E de onde estou o céu parece se fundir com o mar
Em tons cinzas, como minha vida está, em tons cinzas
(perdida em algum lugar)”

Em uma canção não é preciso seguir regras, nem de conjunção nem de pontuação, não é preciso contar toda a verdade, não é preciso ser real, a única coisa que se leva realmente em consideração é que aquilo que sai da boca de um interprete tenha um punhado de sentimentos. Que demonstre o que o autor sentia ao compor, ou o que ele queria demonstrar sentir.

“É claro que foi erro meu, sem tentar eu desisti
É claro que foi erro meu, é claro que não aprendi”

Em sua mente estavam claros dois rostos, o de Sophia e o de Raquel. Uma há muito já habitava seu coração e a outra começava a chegar de mansinho, começava a gerar certa expectativa acompanhada de mais e mais insegurança. Neste momento ele já não sabia quem o havia inspirado a compor aquela canção, que já se encaminhava para o fim. E mais uma vez já não sabia o que procurava. Não sabia se tinha dito tudo que queria dizer, mas sabia que aquilo era a pura verdade.

“Mas você volta pra dizer olá, e em minha mente isso já é se apaixonar.”

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