Andava um tanto quanto feliz, o mês era setembro e ele a pouco havia tirado a carteira nacional de habilitação, era o único do terceiro ano que tinha carro e permissão para dirigi-lo. Quase não cabia em si de tanta alegria. As coisas pareciam tomar um novo rumo. Novos amigos e velhos problemas. Neste período Sophia pouco falava com ele, estava mais preocupada com a formatura, com a comissão de organização que presidia, e com sua viajem para a Austrália, que faria no final do ano.
Estava as vésperas de completar um ano com sua nova banda a Petrus, o nome vem do grego e significa pedra, não queria dizer nada apenas escolheram pois soava legal. Era formada pelos mesmos integrantes da Limões Verdes, só que nesta formação ele tocava guitarra e no contrabaixo esta um outro amigo deles o Mr. Magoo, apelidado por causa da forma de falar. O som havia amadurecido e tomado nova forma. Nesta nova fase tocavam mais composições próprias. Iriam tocar na formatura e por isso estavam ensaiando bastante. A formatura seria temática e todos deveriam ir vestidos como nos anos sessenta e inclusive as musicas deveriam datar desta época. Um grande desafio que foi aceito por todos.
Os ensaios da Petrus se davam na casa do baterista que tinha uma espécie de mini estúdio, na verdade um quartinho nos fundos da casa que todos ficavam apertados e soados enquanto tocavam. O set list da formatura seria o tradicional rock’n roll sessentista, algo extremamente dançante e contagiante. Depois deste ensaio todos iriam sair para beber e comemorar a boa atuação, na verdade para os outros integrantes da banda não era preciso algum motivo para beber, mas ele não era muito disto. Gostava de estar no meio, até arriscava um copo que outro, mas não muito, nem entendia o porquê de gostarem tanto de álcool.
Foram para um clube na zona sul da cidade, era um lugar pequeno e claustrofóbico, com algumas telas gigantes que passavam ao mesmo tempo shows memoráveis de rock enquanto uma banda se esgoelava ao fundo, lá encontraram algumas meninas já conhecidas do Fanho que logo foi puxando papo. Os outros meninos da banda se juntaram aquele ambiente de “caça”, enquanto ele permaneceu sentado observando tudo a distancia. Ficou olhando calmamente a cena e se imaginando no meio daquilo tudo, enquanto erguia o copo até a boca.
- Você é novo aqui né!? – perguntou uma menina que se sentava ao lado dele.
Ela tinha cabelos negros e pele extremamente branca, um pircing de argola no nariz e estava vestida de preto dos pés a cabeça.
- É dá pra se dizer que sou novo sim. – respondeu meio sem entender.
- É que eu nunca te via aqui, não que eu venha sempre aqui, mas nunca te vi e achei você meio desligado do resto do pessoal. – a menina respondeu numa velocidade tão grande que ele mal entendia o que ela falava.
- Ehnnehnn... – resmungou meio apático.
- São seus amigos? – perguntou apontando para o pessoal – notei que você fica o tempo todo olhando pra eles.
- São, são meus amigos sim, na verdade são mais que amigos eles fazem parte da minha banda.
- Nossa você tem banda! Sabe que eu sempre quis ter uma banda, mas sou péssima em cantar e tocar eu nunca tentei. O que você faz na banda? Você é guitarrista você tem cara de guitarrista, acho que você não toca bateria é muito parado, se bem que conheço alguns bateristas meio parados. Hunn... será que você toca baixo ou teclado, ai fala o que você toca?? – ela falava tão rápido que o deixava até meio tonto.
- Eu toco guitarra. – respondeu sem olhar para a menina, voltando sua visão para o pessoal da caçada.
- Sabe aquela loira que está beijando o seu amigo, ela é minha irmã e se chama Flavia, meu nome é Melissa, ela é dois anos mais velha que eu e agente sempre sai juntas. Na verdade ela não gosta muito que eu saia com ela, mas eu sempre saio, agente já foi no...
Aquele conversa toda, naquela velocidade estava deixando-o meio enjoado, não sabia ao certo se era o papo ou a bebida, mas as coisas começaram a tomar formas e cores diferentes. Engoliu a seco aquela situação e decidiu prestar mais atenção na menina.
- Posso te pedir uma coisa? – falou ainda tonto.
- Claro que pode, pode pedir o que quiser. Não quer dizer que eu vá fazer, mas pode pedir. Sabe eu até gosto quando as pessoas me pedem algo, adoro ser prestativa. Acho que isso eu herdei da minha...
- Tu podes falar um pouco menos? – falou
- O Que? – perguntou ofendida.
- Só fala mais devagar então, que eu já não estou entendendo nada.
- Seu grosso! – gritou enquanto saia de perto dele.
Foi a conversa mais estranha que já tivera, e agora já não mais queria ficar ali. Chamou o Fanho e disse.
- Tô indo nessa meu.
- Já!?
- Aham, to caindo fora.
Mal terminou de falar e partiu ainda meio tonto, embarcou no carro. Sentou e esperou alguns minutos antes de girar a chave pra ver se melhorava. Bateu arranque e saiu. O carro mais andava em ziguezague do que em linha reta e três quadras antes de casa foi trocar o cd e colidiu com uma arvore. A batida foi tão forte que ele bateu com a cabeça no volante, mesmo estando de cinto de segurança, o que lhe proporcionou um pequeno desmaio. Acordou em seguida com uma dor na cabeça, mas sem conseguir sair do carro.
- O sr. está bem? – perguntou o paramédico que o atendia.
- Sim, o que aconteceu?
- O sr. bateu na arvore. – respondeu enquanto chamava um colega bombeiro pra cortar as ferragens que prendiam a perna esquerda.
Já no hospital pediu para que avisassem sua mãe. O diagnostico rápido saiu e teve fratura na perna esquerda, algumas escoriações, mas nenhum corte. O medico disse que ele deveria ficar um tempo em observação pela pancada na cabeça e só poderia sair com alguém junto a ele. Quando Dona Ana chegou e viu ele deitado na cama do hospital desatou a chorar.
- Meu filho o que aconteceu?
- Nada mãe, só uma arvore besta que cruzou o meu caminho. – falou em tom de piada.
- Quantas vezes eu já te disse pra não beber e dirigir.
- Mas eu não bebi.
- E como explica o acidente.
- Tá mãe! – falou baixando a cabeça
- Tu é a única coisa que eu tenho filho. – falou enquanto o abraçava.
Durante alguns minutos permaneceram em silencio, apenas abraçados. Sentindo o calor um no outro, tornando aquele momento único. Como se o universo inteiro fosse somente aquele abraço, como se todos os problemas se resolvessem naquele abraço.
- Mãe eu te amo.
- Eu também te amo filho. – falou enquanto deixa uma lágrima rolar de encontro ao chão.
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