Guardou o violão e colocou o carro para dentro do pátio. Entrou na casa que estava vazia e olhou dentro de cada um dos cômodos para certificar-se de que realmente estava só. Estava com um pouco de frio, aquela sessão musical na varanda tinha o deixado congelando. Era hora de tomar um banho quente para se aquecer. Enquanto tomava banho ligou o radio no maior volume possível.
Parecia impossível sentir-se sozinho enquanto a musica preenchia o ambiente, o vapor da água subia de tal maneira que formava uma neblina no banheiro. Em sua mente alguns flashes dos pequenos momentos que havia estado com Raquel, algumas projeções do que não fizera e as duvidas por não ter feito. Ao mesmo tempo vinha a imagem de Sophia dançando em um vai e vem sem fim com se vivesse a musica que ele ouvia, algumas imagens embaçadas e um pouco de muito nada, queria ver quem a acompanhava naquele doce bailar. Estes devaneios o levavam pra fora de seu corpo, ao mesmo tempo estava revivendo os passos dados perto de Raquel e projetando caminhos com ela e de um segundo para o outro via Sophia distante dançando feliz. Como entender tudo? Como encontrar algum caminho em meio a tanta confusão?
- Bom já chega de banho. – falou pra si mesmo, enquanto desligava o chuveiro, numa tentativa de acabar com aquelas imagens alucinógenas.
- Aiaiai, eu vou me vestir e não vou ver mais nada! – como se isso bastasse. Saiu e foi para o quarto.
A noite fria o fez colocar bastante roupa, e sua impaciência fez com que ele não permanecesse na casa vazia. Precisava exorcizar alguns fantasmas que o rondavam, mas como? Como se livrar de um problema que não sabia exato qual era? Como ser diferente? Era preciso ser diferente? Ligou o carro e saiu, mais uma vez sem olhar pra trás. Mais uma vez na tentativa de esquecer ou de superar tudo o que sentia.
Gostar de Sophia poderia ser estranho, mas era justificável, afinal sempre foram muito ligados, mas gostar de Raquel era no mínimo inesperado, mediante a ocasião em que se conheceram e ao pequeno espaço de tempo que estiveram juntos. Mas ao mesmo tempo sentia que já a conhecia e o que mais o deixava irritado era ver traços de Sophia em sua personalidade. Não era pra ser assim, não era pra ser agora. Ou era? Talvez Deus tenha o levado para aquela fria praia por algum propósito maior. Seria tudo obra divina ou puro acaso, ou ainda destino? Mas o que seria destino? Destino seria correr de um problema e encontrar uma paixão? Seria entrar em um restaurante estranho e ser atendido por uma menina surpreendente? Isso seria o destino!?
Sair sem destino e com os olhos quase sem foco era uma distração que adorava fazer. Mas não o fazia agora, sabia muito bem onde precisava ir, onde queria chegar, o que pretendia fazer. Parou o carro e desligou os faróis, não havia movimento algum e o restaurante estava fechado, algumas poucas luzes iluminavam a beira-mar, não passava das oito da noite, mas já estava muito escuro e o frio fazia com que as pessoas se recolhessem para as suas casas. Não era exatamente o que queria encontrar.
Sentou no mesmo banco que a tarde havia conversado com Raquel, seus olhos se perderam no horizonte enquanto apoiava a cabeça com as duas mãos. Parecia pensar e realmente se perdia em pensamento enquanto via as ondas chegando calmamente a costa, algumas aves noturnas e a luz de um navio ao longe. Ali ficou por algum tempo tentando se encontrar. Por onde andava as donas de seus pesadelos? Por mais que se concentrasse em Raquel, Sophia sempre aparecia e dominava seus pensamentos. Soava quase como um carma.
O vento que outrora o ajudava levando seus pensamentos pra longe e trazendo bonança, agora parecia trazer de volta tudo o que ele não queria ansiedade, insegurança, medo e aquele ar de tempestade. Era hora de voltar, mas deixar Raquel e não tentar era mais uma derrota, decidiu então deixar pra outro dia, afinal ele não tinha como encontrar ela agora, tinha apenas o seu numero de telefone rabiscado num papel e não sabia o que dizer nem como dizer, mas ainda assim empunhou o celular e ligou, o telefone chamou três vezes e ninguém atendeu, já estava quase desistindo quando ouviu:
- Alo... – disse a menina.
- Hunnn, Ra-Raquel? – disse com a voz embargada.
- Sim, sou eu. – respondeu já reconhecendo a voz.
- Eu estou ligando só pra te desejar uma boa noite e perguntar se agente pode se ver novamente amanhã?
- Claro que sim, mas tem que ser depois do meu trabalho. – respondeu a menina com a voz tênue e calma.
- Não pode ser hoje? Brincadeira, então até manhã flor. – não entendeu por que a chamou de flor, mas aquilo soou tão natural.
- Flor eu? Bom, até amanhã então.
- Tchau. – respondeu desligando o telefone radiante pela pequena vitoria obtida.
Impressionante com algumas coisas soam grandiosas. Um simples telefonema e uma resposta positiva foi o suficiente para ele se alegrar e ignorar todo aquele ambiente frio que o adornava. Agora sim era hora de voltar para a casa e dormir mais feliz e tranqüilo, quase que realizado. E sem mais delongas voltou ao carro, ligou o rádio, os faróis e partiu, sem olhar pra trás e com uma sensação de leveza que o fazia quase que flutuar. A musica o embalava e de certa forma o guiava para a casa vazia, quando de repente percebeu tocar no radio uma musica que o fez lembrar do aniversário de quinze anos de Sophia. Quando de fato ele sentiu que gostava dela. O universo as vezes parecia ir contra sua vontade, quando estava abrindo espaço em seu coração para Raquel, uma simples musica o fazia lembrar de Sophia.
- Ahhhhhh – gritou sozinho dentro do carro – preciso te esquecer – disse enquanto desligava o radio.
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