XIV – Enfim achei você

Sophia acordou com vontade de dormir mais, o relógio marcava oito e trinta e dois, era um dia lindo, ensolarado, o ultimo sábado do mês de abril e este era o tão esperado dia. O dia que ela vinha perseguindo a meses, numa escolha infundada de tudo que rodeia um grande evento. Sentia-se feliz, a festa seria para um grande numero de pessoas, boa parte ela não tinha visto mais de duas vezes, mas por conversão ou por algum motivo qualquer sua mãe a obrigara a convidar, pessoas influentes dão festas para pessoas influentes. Tudo muito grandioso.
Levantou jogou uma boa dose de água no rosto, era mais de meio dia. A noite anterior havia sido de muita festa de muito procurar e pouco achar, nada é tão fácil quando se tem quinze anos, as moças não olham para rapazes mais novos e meninas mais novas não chamam a atenção, realmente uma fase muito estranha esta chamada adolescência. Tudo soa como objetivo ou desafio. Noites longas e pálidas tornam-se freqüente a menos que você amadureça de uma forma rápida e inesperada, mas isto não acontece com freqüência. A adolescência por vezes te torna alguém patético. Vestiu-se, desceu e sentou-se ao lado de Dona Ana.
- Festa boa ontem?
- Sim.
- Eu já não pedi pra ti na chegar tão tarde?
- Ah mãe, de novo?
- De novo sim, se teu pai tivesse aqui seria diferente.
- Ai não começa por favor.
- Tá bom mocinho, mas me diga está tudo pronto para hoje a noite?
- O que tem hoje?
- Ora, hoje é a festa de quinze anos de Sophia, não lembra?
- Ah sim, eu não vou.
- Como não vai?
- Não vou mesmo, a Sophia anda muito chata nem fala mais direito comigo e eu não quero ir.
- Tu vai sim e isso é uma ordem.
- Ai mãe!
- Não tem ai nem meio ai, tu vai e acabou, espero que tu esteja bem vestido, como assim não vai, pensa que se manda... – saiu falando enquanto se dirigia para a cozinha – espero que você vá como um verdadeiro cavalheiro. Não me desaponte.
Bom não havia escapatória, ele teria que ir, não importava se Sophia andava muito chata, se ela não falava mais direito com ele, ele teria que ir. Afinal não queria desapontar sua mãe. Mas na verdade não queria perder esta festa e só estava “se fazendo” um pouco, pois quem não quer ir numa festa não reserva uma roupa caríssima na melhor loja da cidade.
Como é de praxe o tempo é alheio a nossa vontade, quando queremos que voe ele anda contando os passos e quando queremos que não passe ele simplesmente se desprende de tudo e torna-se a coisa mais rápida na face da Terra e com Sophia não era diferente, nas horas que antecediam a festa ela queria que o tempo voasse, mas ele insistia em se arrastar pelos degraus da escada que dava acesso aquele salão de beleza onde ela se preparava para o seu momento de princesa.
A tarde passou rapidamente entre uma partida e outra de Winning Eleven, era simples ser feliz, sempre foi simples ser feliz e neste caso precisava apensa de uns amigos e um console de vídeo game, é como na vida, às vezes perdemos, às vezes ganhamos, mas sempre se pode começar um novo jogo, se pode começar do zero, basta apenas querer. E quando ele percebeu já era mais de seis e meia da tarde tinha que se arrumar para a grande festa de Sophia. Sophia havia confessado a ele uns dias atrás que estava muito ansiosa para a festa, pediu desculpas por estar tão ausente e por ter deixado-o meio de lado. Ela é uma daquelas pessoas que sabe dizer o que queremos ouvir.
A noite chegou e com ela a festa, os pais de Sophia faziam a recepção naquele lugar grande que comportava mais de trezentas pessoas, mesas redondas, com lugares marcados, toalhas em lilás, velas e um grande quadro com o rosto de Sophia a sorrir, era o sorriso mais lindo que ele já vira, e ao se deparar com aquele quadro sentiu algo que nunca antes havia sentido, um frio que começava na barriga e parecia ir para a coluna e dela se espalhar por todo o corpo, era algo que apenas aquele sorriso poderia causar nele. As pessoas todas sentadas ouvindo aquela musica de fundo, na ansiedade de ver como ela viria vestida, como se isto traduzisse o que ela era ou queria ser, o que sentia ou queria sentir, o que via ou queria ver.
De repente as luzes se apagam, uma musica mais alta começou a tocar, as velas já acesas davam um tom especial ao ambiente e então a maquina de fumaça entrou em ação e poliu a visão na direção da porta, todos já sabiam que ela estava por entrar e todos a aguardavam com muita euforia. Soberanamente entrou acompanhada de seu pai, deram uma volta em todo o salão enquanto todos aplaudiam, Sophia vestia mais uma vez sua cor preferida o lilás, um tom bem claro desta cor, seu vestido deixava seus ombros expostos, seus longos cabelos lisos e loiros haviam ganhado alguns cachos nas pontas, luvas cobriam as mãos e nos pés uma sapatilha para o ritual da troca de sapatos. Quando ela se aproximou dele, novamente sentiu a sensação de outrora, um frio que começava na barriga ia para a coluna e se espalhava pelo corpo todo. A menina estava mais uma vez linda, mais uma vez em sua frente e mais uma vez a sorrir.
A festa de quinze anos tem alguns protocolos a serem seguindos, tem o ritual da troca de sapatos, como se a menina nunca tivesse usado um sapato de salto na vida, tem o anel que o padrinho dá a menina e tem a valsa. Esta ultima muitas vezes temida por alguns e tão esperada por outros. Por certo era apenas para a menina/moça dançá-la com homens, mas sempre tem uma tia que atropela tudo e também dança quebrando a regra.
A festa foi acontecendo e cada vez mais se sentia esquecido por Sophia e aquilo foi lhe gerando um aperto no peito que mal podia respirar, viu todos os rituais acontecerem um a um, a troca de sapatos, o ganho do anel e a valsa começando. Uma ciranda sem fim, onde cada um dos cavalheiros presentes dança com a dama debutante, com o passar da musica foi se sentindo cada vez pior e para que ninguém o visse nem mesmo a sua mãe, ele correu para o jardim e de lá ficou ouvindo a musica, os aplausos e imaginando sua possível dança, não entendia o que estava sentindo, não entendia o que se passava, ouviu que a musica estava prestes a terminar e eis que de repente Sophia surge.
- Enfim achei você, não dançar?
- Nossa, achei que...
- Estou esperando! – a menina falou interrompendo ele que tentava argumentar a seu favor.
- Claro que sim. – respondeu com os olhos cheios de lágrimas, e ali mesmo iniciaram a dança, deram uma ou duas voltas e começaram a ir de encontro ao salão principal.
- Você está diferente hoje – sussurrou a menina.
- Você está linda com sempre – pensou em dizer - enquanto todos aplaudiam o fim da valsa dos dois – obrigado por me chamar!
- Tu não podias faltar neste momento tão especial pra mim – respondeu e agora era ela quem estava com os olhos cheios de lágrimas, cheios talvez não, mas envolvido em uma fina camada de lágrimas que tornavam a visão um pouco turva.
Como é de costume o pai da menina retornou a dançar e assim se encerrou aquele momento, que pra sempre ficou guardado no coração de cada um, no coração e na memória, uma prova de afeto, carinho e amor jamais vista por aquelas mais de trezentas pessoas que estavam presentes. Para ele serviu como uma alavanca em relação a tudo que sentia e para ela, bom para ela é algo que devemos imaginar.

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