II – Bromélias

Acordou encharcado de suor, andava tendo alguns sonhos estranhos há mais de uma semana, na verdade eram pesadelos, sonhava sempre que estava correndo de algo muito ruim, não conseguia gritar e suas pernas perdiam a força gradativamente até que ficava paralisado, era terrível. Mas sempre acabava acordando, meio acuado, com falta de ar e com medo de dormir, tinha pouco mais de nove anos e para ele aquilo era a pior coisa que podia enfrentar, até por que não conhecia muitas coisas e muito menos problemas de verdade. O que ele mais queria era ser adulto para ter liberdade e fazer o que bem entender, mal sabia que a liberdade vertia em suas pequenas mãos.

Algumas horas se passaram e ainda continuava sem dormir, era hora de sair da cama para ir a aula, estava na primavera finalzinho do ano quase natal, na verdade faltava quase um mês, mas para ele já era quase natal. As ruas tinham um colorido imperceptível aos olhos das outras pessoas, eram flores que coloriam o chão, cheiros próprios da época do ano e para ele tudo estava indo perfeitamente exceto o fato daqueles pesadelos. Havia sido um ano bom, era a segunda vez que freqüentava a segunda série e tudo parecia muito fácil, afinal, rever a matéria geralmente é fácil.

Sempre foi muito despercebido com o mundo que o rodeava, parecia sempre estar em uma realidade paralela, falava muito e tinha muitos amigos, que mais tarde descobriu serem poucos, tinha variação de humor, estava feliz e subitamente fechava-se para o mundo, gostava de musica e estava aprendendo a tocar violão sozinho, odiava receber ordens e conseqüentemente odiava professores. Achava que sabia de tudo, achava que tinha tudo, mas o que tinha em suas pequenas mãos era uma barra de chocolate que tinha comprado para presentear uma menina magricela que havia tirado no amigo-secreto da escola, uma menina que ele nunca havia falado, na verdade nem sabia direito o nome a única coisa que ele lembrava foi da vez em que tinha caçoado dela em um longínquo primeiro de abril. Dia da mentira, dia dos bobos.

Ela vestia uma calça que combinava com a blusa de mangas longas, ambas de cor lilás com diferença entre tons, a blusa tinha estampa de algumas flores em amarelo e a calça um bordado na altura do fêmur esquerdo, calçava sapatinha de cor branca e usava um chapéu estilo Cloche Frances dos anos vinte, também na cor lilás, tudo para combinar. Adora combinar a roupa, ficava horas arrumando-se e sempre andava perfumada. Herança de sua mãe uma ex-modelo que voltava para sua cidade natal depois de cruzar o país. Era o primeiro ano que Sophia estudava em um só colégio e para ela aquele era o melhor ano de sua vida.

O sol entrava pela janela e desenhava no chão imagens que ninguém via, a não ser alguém que passasse mais tempo tendo devaneios do que vivendo a realidade, objetos e seres vindos de outros planetas especialmente para tirar a sua escassa atenção. Se aproximava a hora do tal amigo secreto.

Fazendo graça o tempo todo sempre era o centro das atenções, até que chegou sua vez, meio sem saber o que falar descreveu em poucas palavras a menina magricela e entregou o tal chocolate a ela, estava embrulhado em papel celofane com um top muito estranho, que ele mesmo havia feito, estranho mas natural.

Depois da troca de presentes seguiram conversando, até que se deu o fim da aula. Aquele foi o primeiro dia que voltaram juntos da escola e pela primeira vez ele viu que ela morava bem perto de sua casa a duas quadras, conversaram por todo o caminho, falaram de cachorros, de árvores, de clubes de futebol e de flores. Ela adorava flores principalmente de margaridas, rosas e bromélias. Ele não entendia muito de flores, não entendia muito de quase nada, mas disse na maior das convicções que conhecia tudo sem nunca ter ouvido falar em bromélias, pouco conhecer margaridas e apenas saber reconhecer as rosas, gostava apenas de umas flores amarelas que via pelo caminho da escola. Ela era a primeira menina que falava com ele e ele não sabia direito como lidar, queria parecer superior, mas ao mesmo tempo pouco se importava com ela. Queria parecer inteligente, mas se sentia burro por estar repetindo o ano. Queria ser ele mesmo, mas achava pouco o que tinha a oferecer.

Chegando em casa ele sentiu o cheiro que vinha da cozinha largou a mochila pelo caminho e sentou-se a mesa, sua mãe poucas vezes estava em casa vivia ocupada e sem tempo, adorava quando ela cozinhava, para ele era a melhor comida do mundo. Ficou observando o vai e vem dela e relembrando o caminho de volta pra casa. Durante o almoço após um breve silencio perguntou:

- Como são as bromélias? A senhora conhece?

- As bromélia são flores que muitas pessoas confundem com parasitas, mas se tu quiseres ver uma olhe pela janela filho. – respondeu sua mãe apontando para um pequeno vaso que da porta da cozinha podia se avistar no quintal.

Olhou com uma cara de quem não havia gostado muito. Seguiu brincando com o almoço e se questionando, como alguém pode gostar de bromélias? Bromélias são estranhas. Aquilo nem parece uma flor.


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