Comecei no ano passado a escrever um livro que até agora se intitula “A Casa Vazia”, vou aos poucos postando os capítulos escritos, até pra ver se bate a inspiração de continuar, conforme gostarem eu posto mais. Que esse ano seja um ano inteiramente bom para todos nós.
A Casa Vazia
I - Apnéia
Acordou sem ar, com os pés frios e com uma enorme vontade de ir ao banheiro levantou-se, olhou para o relógio frio que marcava pouco menos de 6 horas, lembrou-se da noite que vivera e dos desejos que se esconderam atrás de dois ou três abraços. Decidiu então andar pela praia deserta, no intuito de esquecer tudo o que sentia, agasalhou-se e saiu, sem ver ninguém, sem pensar em nada, apenas na doce menina que o abraçara na noite anterior. Tocou a areia gélida com os pés nus, o frio era intenso como costuma ser no mês de julho então resolveu caminhar ainda mais rápido, em passos tétricos quase que uma corrida, corria contra o tempo e contra o mundo, queria não sentir. O vento soprava forte e se tornava mais um obstáculo, parecia arrancar-lhe o passado e abençoá-lo com a coragem. Era o vento dos novos dias era o vento dos novos tempos.
Costumava reclamar do tempo, algo abstrato que geralmente andava contra os seus desejos, quando algo era realmente bom simplesmente o tempo corria tão de pressa que ele não podia suportar, quando algo era ruim o tempo se arrastava em segundos intermináveis, minutos inestimáveis e horas inesgotáveis, costuma entregar-se aos sentimentos e ser transparente, costuma sofrer por isso, e esse era o maior motivo de ter ido se isolar em uma praia ao norte de da Tramandaí, onde recordava boa parte de sua adolescência não tão distante. A casa de veraneio, a casa das férias, a casa vazia.
A festa estava boa, musica contagiante e até dançante, seus olhos procuravam algo que ele não podia tocar, não da maneira que queria. A via passar seguia seus passos com os olhos, seus movimentos calmamente registrados em sua mente, registrados e guardados em um lugar aonde iam apenas os momentos bons. Em sua mão direita um copo que continha gelo e um resto de qualquer bebida, na boca um chicle de menta e na mente um grande desejo impossível. Mas como consolo ela vinha e o olhava, abraçava, dançava, parecia sentir o que ele queria e como forma de provocação permanecia perto e o deixava ainda mais tenso. Ele não sabia como ganhar aquele jogo e então resolveu correr, correr mais do que suas pernas podiam, mais do que seu corpo permitia, decidiu sentir o vento no rosto, sentir o frio do inverno, decidiu sumir por uns tempos, e assim ele foi parar naquela praia deserta e fria.
Já fazia quase duas horas que caminhava a beira-mar, sentia o frio do vento que o levava cada vez mais para longe, seguia os rastros de ninguém e entregava-se ao cinza do céus que parecia fundir-se com o mar em ressaca. Uma nostalgia apertava seu peito, pois fora ali que vivera uns dos melhores momentos de sua vida, flashes da noite anterior surgiam em sua mente e projeções subseqüentes o confundiam, era como um pesadelo de onde ele não podia acordar de onde não sabia como acordar. A areia vinha rasteira e colidia direto com suas pernas, estava descalço e com as calças alevantadas até a altura do joelho, já era tarde e ele precisava voltar, mas como voltar, voltar por quê? Continuou seguindo algum rastro ainda cabisbaixo, sabia que o real motivo de estar ali não era apenas uma noite frustrada, sabia o motivo e o guardava pra si como sempre o fizera, como já não conseguia mais fazer.
Ela era mais que uma amiga, ela era Sophia, a menina de olhos claros que cresceu junto a ele, a menina que ele dividia os problemas e encontrava as soluções, a menina que para ele sempre fora um menino, mas que agora era uma mulher, como isso? Não sabia ao certo o que o fazia sentir o que sentia, não entendia como aquilo nascera, não conseguia parar de pensar nela, mas não podia ir de encontro, pois tinha medo, medo de errar e até mesmo medo de acertar.
Sophia havia completado 18 anos, tinha pouco mais de um metro e setenta, cabelos longos e lisos, pele clara, olhos firmes e voz doce. Há pouco havia passado no vestibular, estava feliz, pois ia cursar jornalismo, um velho sonho que estava se concretizando. Filha de pais gaúchos, nascida no Rio de Janeiro, veio para o sul com oito anos viver na cidade natal de seus pais. Sempre sorridente, estudiosa e espontânea.
Quando chegou de volta a casa, tirou à areia que continha em seus pés, viu que não havia movimento em nenhum dos lados de sua vizinhança, afinal quem vai pra praia no inverno? Lembrou novamente da noite anterior, queria mudar a história, mudar pelo menos desta vez, virar o jogo. Aproveitando-se da ausência de pessoas ao seu redor resolveu fazer o que mais gostava, mas que pouco fazia, algo que geralmente o dava forças e fazia ele entrar em um transe ímpar, escutar musica no volume máximo. E o fez por horas até a noite chegar e com ela o frio, e que frio.
Para quem não conhece o dia no inverno gaúcho ele é mais ou menos assim, durante boa parte da manhã é frio, até mais ou menos dez horas, algo que qualquer gaúcho suporta tranqüilo, então vai esquentando até alcançar o pico máximo de calor lá pelas duas da tarde e depois começa a esfriar novamente, as cinco da tarde começa a anoitecer, algo geralmente muito apreciado aqui no sul, o céu fica com tons alaranjados e a noite vem caindo lentamente junto com muito sereno, a temperatura cai gradativamente e suavemente e alcança o seu pico máximo ou mínimo, depende da ótica, por volta das três e meia da madrugada.
O entardecer havia sido bem interessante, depois de um dia inteiro nublado o sol havia se apresentado logo na hora de ir embora, encheu o céu de tons e semitons de diversas cores e se foi, já era tarde e estava com fome, como tinha vindo de repente ele não tinha trago nada para comer além de alguns biscoitos salgados que sempre tinha no carro e só havia sentido fome de verdade ao cair da noite, geralmente quando estava com a cabeça cheia de problemas ele não sentia fome, precisava comprar algo e como a praia estava deserta, pois não era época de temporada, tinha que ir até a cidade mais próxima para comprar o que comer, embarcou em seu carro e saiu. Fez algumas compras, jantou em um pequeno bar que servia pasteis de camarão com queijo catupiry. Era um dos poucos lugares que encontrou aberto, não era grande, mas estava quente e tinha uma luz que o agradava.
Comeu rapidamente e voltou para dormir.
Não havia sido um dia agitado e talvez por isso ele estava tendo problemas para pegar no sono. Juntou todos os cobertores que encontrou naquela casa de verão, mas ainda assim cama estava fria e demorou um pouco para esquentar. Não havia nenhum ruído na rua, não havia sinais de luz dentro do quarto e não havia mais sentido para permanecer acordado, em sua mente ecoavam frases que vinham de um outro lugar de sua vida. Parecia soar estranho, parecia não ser real. Aos poucos tudo foi ficando mais calmo e a cama fria já estava quente e o adormecer se deu de forma natural. Era o fim do primeiro dia.
**voltar para o livro, A Casa Vazia***
A Casa Vazia
I - Apnéia
Acordou sem ar, com os pés frios e com uma enorme vontade de ir ao banheiro levantou-se, olhou para o relógio frio que marcava pouco menos de 6 horas, lembrou-se da noite que vivera e dos desejos que se esconderam atrás de dois ou três abraços. Decidiu então andar pela praia deserta, no intuito de esquecer tudo o que sentia, agasalhou-se e saiu, sem ver ninguém, sem pensar em nada, apenas na doce menina que o abraçara na noite anterior. Tocou a areia gélida com os pés nus, o frio era intenso como costuma ser no mês de julho então resolveu caminhar ainda mais rápido, em passos tétricos quase que uma corrida, corria contra o tempo e contra o mundo, queria não sentir. O vento soprava forte e se tornava mais um obstáculo, parecia arrancar-lhe o passado e abençoá-lo com a coragem. Era o vento dos novos dias era o vento dos novos tempos.
Costumava reclamar do tempo, algo abstrato que geralmente andava contra os seus desejos, quando algo era realmente bom simplesmente o tempo corria tão de pressa que ele não podia suportar, quando algo era ruim o tempo se arrastava em segundos intermináveis, minutos inestimáveis e horas inesgotáveis, costuma entregar-se aos sentimentos e ser transparente, costuma sofrer por isso, e esse era o maior motivo de ter ido se isolar em uma praia ao norte de da Tramandaí, onde recordava boa parte de sua adolescência não tão distante. A casa de veraneio, a casa das férias, a casa vazia.
A festa estava boa, musica contagiante e até dançante, seus olhos procuravam algo que ele não podia tocar, não da maneira que queria. A via passar seguia seus passos com os olhos, seus movimentos calmamente registrados em sua mente, registrados e guardados em um lugar aonde iam apenas os momentos bons. Em sua mão direita um copo que continha gelo e um resto de qualquer bebida, na boca um chicle de menta e na mente um grande desejo impossível. Mas como consolo ela vinha e o olhava, abraçava, dançava, parecia sentir o que ele queria e como forma de provocação permanecia perto e o deixava ainda mais tenso. Ele não sabia como ganhar aquele jogo e então resolveu correr, correr mais do que suas pernas podiam, mais do que seu corpo permitia, decidiu sentir o vento no rosto, sentir o frio do inverno, decidiu sumir por uns tempos, e assim ele foi parar naquela praia deserta e fria.
Já fazia quase duas horas que caminhava a beira-mar, sentia o frio do vento que o levava cada vez mais para longe, seguia os rastros de ninguém e entregava-se ao cinza do céus que parecia fundir-se com o mar em ressaca. Uma nostalgia apertava seu peito, pois fora ali que vivera uns dos melhores momentos de sua vida, flashes da noite anterior surgiam em sua mente e projeções subseqüentes o confundiam, era como um pesadelo de onde ele não podia acordar de onde não sabia como acordar. A areia vinha rasteira e colidia direto com suas pernas, estava descalço e com as calças alevantadas até a altura do joelho, já era tarde e ele precisava voltar, mas como voltar, voltar por quê? Continuou seguindo algum rastro ainda cabisbaixo, sabia que o real motivo de estar ali não era apenas uma noite frustrada, sabia o motivo e o guardava pra si como sempre o fizera, como já não conseguia mais fazer.
Ela era mais que uma amiga, ela era Sophia, a menina de olhos claros que cresceu junto a ele, a menina que ele dividia os problemas e encontrava as soluções, a menina que para ele sempre fora um menino, mas que agora era uma mulher, como isso? Não sabia ao certo o que o fazia sentir o que sentia, não entendia como aquilo nascera, não conseguia parar de pensar nela, mas não podia ir de encontro, pois tinha medo, medo de errar e até mesmo medo de acertar.
Sophia havia completado 18 anos, tinha pouco mais de um metro e setenta, cabelos longos e lisos, pele clara, olhos firmes e voz doce. Há pouco havia passado no vestibular, estava feliz, pois ia cursar jornalismo, um velho sonho que estava se concretizando. Filha de pais gaúchos, nascida no Rio de Janeiro, veio para o sul com oito anos viver na cidade natal de seus pais. Sempre sorridente, estudiosa e espontânea.
Quando chegou de volta a casa, tirou à areia que continha em seus pés, viu que não havia movimento em nenhum dos lados de sua vizinhança, afinal quem vai pra praia no inverno? Lembrou novamente da noite anterior, queria mudar a história, mudar pelo menos desta vez, virar o jogo. Aproveitando-se da ausência de pessoas ao seu redor resolveu fazer o que mais gostava, mas que pouco fazia, algo que geralmente o dava forças e fazia ele entrar em um transe ímpar, escutar musica no volume máximo. E o fez por horas até a noite chegar e com ela o frio, e que frio.
Para quem não conhece o dia no inverno gaúcho ele é mais ou menos assim, durante boa parte da manhã é frio, até mais ou menos dez horas, algo que qualquer gaúcho suporta tranqüilo, então vai esquentando até alcançar o pico máximo de calor lá pelas duas da tarde e depois começa a esfriar novamente, as cinco da tarde começa a anoitecer, algo geralmente muito apreciado aqui no sul, o céu fica com tons alaranjados e a noite vem caindo lentamente junto com muito sereno, a temperatura cai gradativamente e suavemente e alcança o seu pico máximo ou mínimo, depende da ótica, por volta das três e meia da madrugada.
O entardecer havia sido bem interessante, depois de um dia inteiro nublado o sol havia se apresentado logo na hora de ir embora, encheu o céu de tons e semitons de diversas cores e se foi, já era tarde e estava com fome, como tinha vindo de repente ele não tinha trago nada para comer além de alguns biscoitos salgados que sempre tinha no carro e só havia sentido fome de verdade ao cair da noite, geralmente quando estava com a cabeça cheia de problemas ele não sentia fome, precisava comprar algo e como a praia estava deserta, pois não era época de temporada, tinha que ir até a cidade mais próxima para comprar o que comer, embarcou em seu carro e saiu. Fez algumas compras, jantou em um pequeno bar que servia pasteis de camarão com queijo catupiry. Era um dos poucos lugares que encontrou aberto, não era grande, mas estava quente e tinha uma luz que o agradava.
Comeu rapidamente e voltou para dormir.
Não havia sido um dia agitado e talvez por isso ele estava tendo problemas para pegar no sono. Juntou todos os cobertores que encontrou naquela casa de verão, mas ainda assim cama estava fria e demorou um pouco para esquentar. Não havia nenhum ruído na rua, não havia sinais de luz dentro do quarto e não havia mais sentido para permanecer acordado, em sua mente ecoavam frases que vinham de um outro lugar de sua vida. Parecia soar estranho, parecia não ser real. Aos poucos tudo foi ficando mais calmo e a cama fria já estava quente e o adormecer se deu de forma natural. Era o fim do primeiro dia.
**voltar para o livro, A Casa Vazia***
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